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Estamos prontos para semanas de quatro dias – há muito trabalho inútil no mundo

  • 16 de novembro de 2023

Em 2011, o jornalista inglês Alex Bellos – fã de matemática e autor do best seller Alex no País dos Números – fez um quiz online com a pergunta “qual é seu número favorito?”. Mais de 30 mil pessoas responderam. O 7 ficou em primeiro lugar, com 9,7% dos votos.

É fato que essa foi uma pesquisa informal, sem representatividade estatística. Mas se o IBGE incluísse a questão no censo, com todo o rigor, é bem provável que o sete mantivesse a dianteira. Nas palavras de Bellos, “o sete tem sido o número mais culturalmente festejado por toda a história. As maravilhas do mundo, os pecados capitais, os mares, samurais e anões, todos vêm em sete.”

A semana também. Ela é uma anomalia: trata-se da única unidade inteiramente artificial do calendário como o conhecemos. Os meses correspondem, grosso modo, ao ciclo de fases da Lua. Os anos, às voltas da Terra em torno do Sol. Os dias, às voltas da Terra em torno de si mesma. As semanas, porém, se distribuem à revelia do céu: um mês ou ano podem começar em plena quarta.

Quando o rei Sargão I da Acádia invadiu a cidade suméria de Ur, mais de dois milênios antes de Cristo, ele impôs a primeira semana de sete dias da história registrada. A República romana adotava algo quase igual: os cidadãos trabalhavam sete dias e faziam feira no oitavo, quando os agricultores vinham à cidade. As crianças não tinham aula neste dia.

Esse fascínio supersticioso pelo 7 vem de sua estranheza. Ele é ímpar e primo (não pode ser dividido por nenhum número que vem antes). O 3 e o 5 também são as duas coisas, mas eles dão um ar de regularidade maior: o 5 é metade de 10, e o 3 está embutido tanto no 6 como no 9. Na sequência de 1 a 9, “só o número 7 permanece isolado”, diz Bellos. “Nem produz um número dentro do grupo, nem é produzido por outro”.

A invenção do descanso

Inventada a semana, era hora de criar seu final. Foram os judeus, no primeiro milênio antes de Cristo, que determinaram um dia de descanso, o shabat – sábado –, a cada seis dias de trabalho. Esse esboço pioneiro de CLT, talhado à imagem e semelhança do expediente de Deus no Gênesis, foi o pontapé inicial da semana de sete dias que seguimos até hoje. Já o final de semana de dois dias é uma invenção bem mais recente (e nem de longe universal: um estudo de 2007 da Organização Internacional do Trabalho calculou que 614,2 milhões de pessoas mundo afora trabalham mais de 48 horas por semana).

Começou em 1870, com um early saturday na Inglaterra: o pessoal podia sair na hora do almoço aos sábados. Melhor que deixar só o domingo para beber – e aí tolerar a ressaca coletiva na segunda. Depois, em 1908, um moinho de algodão na Nova Inglaterra (EUA) instituiu a primeira semana de trabalho de cinco dias para garantir que tanto os funcionários judeus como os cristãos – que descansam no domingo, é claro – pudessem repousar em seus dias sagrados.

Um ponto pivotal foi quando Henry Ford adotou o fim de semana de dois dias em 1926. “Pessoas que têm mais lazer precisam ter mais roupas. Elas comem uma variedade maior de alimentos. Elas requerem mais veículos para se transportar.” Os empresários precisavam desovar bens de consumo, e a massa operária ansiava por tempo livre para o american way of life.

Em 1930, o economista John Maynard Keynes previu que, no século 21, a tecnologia teria avançado o suficiente para garantir semanas de trabalho de apenas dois dias (15 horas) nos países desenvolvidos, sem mexer com a remuneração e a produtividade dos empregados. Ele acertou: os EUA atingiram um grau de inovação no ambiente de trabalho que permite a utopia keynesiana, em tese. Um empregado americano médio, hoje, demora 15 minutos para realizar o que um brasileiro faz em uma hora.

Só não rolou a semana de 15 horas mesmo. Por que? A explicação intuitiva é que nenhuma empresa optaria por manter três empregados de 15 horas se dá para manter um só em regime de 45 horas. Desde o movimento ludista do século 19 há o medo de que a automação – de caixas eletrônicos a linhas de metrô sem maquinistas – seja sinônimo de demissão, jamais de folga.

O problema desse argumento é que ele não tem respaldo na realidade. Não há desemprego em massa. Países com grau altíssimo de automação, como Japão e os próprios EUA, estão em estado de pleno emprego. É que novos cargos surgiram para substituir profissões canceladas. O Fórum Econômico Mundial (WEF) calcula que, até 2025, o avanço tecnológico criará 12 milhões de vagas a mais do que vai destruir. Um saldo final positivo.

Que vagas são essas? Algumas respostas são óbvias: tecnologia da informação (TI) e desenvolvimento de software, por exemplo, são áreas que crescem mais rápido do que as universidades são capazes de formar especialistas. Nem todo mundo, porém, está preenchendo espaços que precisam ser preenchidos. Nas cidades mais ricas, a massa de operários deu lugar a cargos de escritório que o antropólogo David Graeber apelidou de bullshit jobs (algo como “emprego papo furado”).

Bullshit jobs: uma pandemia

Graeber define bullshit jobs como cargos cuja existência os próprios ocupantes não são capazes de justificar, porque passam a maior parte do expediente sem fazer nada de realmente útil para a empresa ou o mundo. A maior parte das profissões que conhecemos não são assim,claro: professores, motoristas de ônibus, garçons, lixeiros, bombeiros e até deputados têm uma importância óbvia. E soa ilógico imaginar que o setor privado – onde supostamente impera a busca pela eficiência – pagaria salários à toa.

Mas não é o que mostram os dados. Em 2016, o trabalhador médio dos EUA passava só 39% de seu expediente realizando a tarefa que foi contratado para fazer, e outros 11% em reuniões produtivas. Os 50% restantes eram desperdiçados com a caixa de e-mail inchada, reuniões que poderiam ser um e-mail, preenchimento de formulários inúteis, interrupções feitas pelos supervisores para cobrar tarefas não essenciais etc.

O índice de desalento com a vida profissional é igualmente alto: a empresa de pesquisa de mercado YouGov no Reino Unido descobriu que 37% dos britânicos acreditam que seu trabalho não faz diferença alguma para o mundo, e 11% suspeitam disso.

Para entender quem são e o que fazem essas pessoas, Graeber foi além dos números. Ele analisou 124 relatos de pessoas que reclamaram, na internet, de terem trabalhos inúteis – e também pediu testemunhos a 250 bullshit workers assumidos de vários países (inclusive o Brasil). São recepcionistas que atendem uma ligação por dia e enchem um pote de balas, ascensoristas, vendedores de call center que fazem ligações indesejadas, assistentes de RH que trabalham pouco mais de uma hora por dia, autores de relatórios que ninguém lê, preenchedores de papéis e planilhas que não precisariam existir, gestores de pessoas que não precisam ser geridas etc.

Um funcionário público espanhol parou de ir ao trabalho e passou seis anos estudando o filósofo Spinoza antes de alguém dar pela falta do dito-cujo. Só 6% dessas pessoas se declaram felizes em ganhar dinheiro “fácil”: a dor psicológica de não ter propósito é equiparável à de trabalhar duro.

Casos extremos podem ser exceções. Mas os dados já citados mostram que metade de um expediente comum em uma cidade contemporânea é gasto em bobagens – mesmo em cargos que precisam existir. Sinal de que Keynes estava certo: há muita gente que poderia trabalhar menos sem perder nada em produtividade. Basta racionalizar a rotina.

A semana de quatro dias

É por isso que, entre novembro de 2023 e abril de 2024, 21 empresas brasileiras vão adotar experimentalmente um regime de trabalho de quatro dias semanais. A iniciativa partiu da ONG britânica 4 Day Week, que já fez algo similar no Reino Unido: em 2022, 61 empresas deram finais de semana de três dias para 2.900 funcionários. O experimento chegou ao fim em dezembro.

91% das firmas que participaram resolveram manter a semana de quatro dias por tempo indeterminado, e 4% vão considerar seriamente implantá-la. Só 4% disseram “não” em definitivo. A receita dessas empresas subiu, em média, 35% em relação a 2021 – um dado que, sem dúvida, teve um empurrãozinho da reabertura econômica pós-pandemia, mas excelente de qualquer forma. A nota média dos gestores para a experiência foi 8,5 de 10. 43% dos funcionários declaram melhora na saúde mental; 40% em quadros de insônia, e o tempo médio passado com os filhos, naturalmente, aumentou. 57% menos funcionários pediram demissão, e 15% falaram que não aceitariam uma oferta de emprego de 40 horas semanais por um salário maior.

Por fim: quase todos os envolvidos conseguiram manter ou aumentar a produtividade dos funcionários. Graeber não viveu para ver esses resultados: morreu em 2020. Mas ele já imaginava que era possível: “Talvez o foco devesse ser na nefasta organização interna nas empresas”, disse em 2018 ao El País. “Diante da pressão de criar mais empregos, todas tendem a aumentar sua equipe com postos que não são tão necessários.”

Se há cada vez menos trabalho na humanidade, ótimo: não vamos inventar mais só para não ficar sem. Não há nada de intrinsecamente ético em se trancar no escritório por um tempo pré-determinado; mesmo os servos medievais trabalhavam para completar tarefas de plantio e colheita – não enrolavam quando não havia o que fazer. Tempo livre não é algo que se deveria conquistar, nem motivo para vergonha: é só o estado básico de cada animal que existiu na Terra antes de nós.

 

 

   
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