Nos dias 18 e 19 de março de 2026, o Tribunal de Contas do Estado do Paraná recebeu, em Curitiba, o 3º Encontro Conacate Mulher, promovido pela Confederação Nacional das Carreiras e Atividades Típicas de Estado. Com o tema “Violência contra a mulher e a mudança para um futuro seguro”, o evento reuniu especialistas, representantes de entidades, servidoras, servidores públicos e integrantes de instituições comprometidas com a construção de respostas mais sólidas, articuladas e efetivas para um dos problemas sociais mais persistentes e graves do país. Filiado à CONACATE, à Pública Central do Servidor e à FENASTC, o SINDICONTAS/PR acompanhou o encontro e participou ativamente de sua programação, reafirmando a importância de que o debate sobre a violência contra a mulher ocupe lugar central na agenda institucional e pública.
A relevância do tema não decorre apenas de sua gravidade, mas da forma como ele atravessa a vida social, institucional e política do país. O Brasil continua convivendo com índices alarmantes de violência de gênero, e os dados mais recentes apresentados ao longo do encontro reforçam que esse não é um fenômeno episódico nem residual. Em 2025, o país registrou 1.568 vítimas de feminicídio, em sua maioria assassinadas por parceiros ou ex-companheiros, frequentemente dentro do próprio ambiente doméstico. Esses números, por si só, já seriam suficientes para demonstrar a urgência do debate, mas o encontro mostrou que o problema não se resume à sua face mais extrema. A violência contra a mulher é contínua, multifacetada e, muitas vezes, naturalizada. Ela se expressa por meio de agressões físicas, psicológicas, morais, sexuais e patrimoniais, mas também por vias menos visíveis, como a violência institucional, simbólica, política e comunicacional, que humilha, silencia, desacredita e empurra mulheres para fora dos espaços de decisão e proteção.
Ao longo do evento, ficou evidente que a violência contra a mulher não pode ser compreendida apenas como um problema individual, doméstico ou circunstancial. Ela está profundamente ligada a estruturas históricas de desigualdade, à concentração de poder, à baixa representatividade feminina e à persistência de padrões culturais que ainda legitimam, relativizam ou minimizam práticas violentas. Nesse sentido, um dos eixos mais importantes do encontro foi justamente a discussão sobre como a escassa presença de mulheres em espaços de poder e decisão compromete a qualidade da democracia e enfraquece as respostas institucionais. Quando mulheres não ocupam de forma equitativa os espaços legislativos, executivos, judiciais, sindicais e associativos, o resultado não é apenas simbólico: ele se traduz em políticas públicas frágeis, em redes de proteção insuficientes e em ambientes institucionais menos sensíveis e menos preparados para acolher, compreender e agir diante da violência de gênero.
Outro ponto fortemente debatido foi a insuficiência de se confiar apenas no aparato legal. O Brasil possui marcos normativos reconhecidos, como a Lei Maria da Penha e outras legislações específicas, mas a experiência concreta das mulheres mostra que a existência da lei, isoladamente, não garante proteção efetiva. Persistem falhas estruturais na rede de atendimento, insuficiência de delegacias especializadas, desarticulação entre serviços, subnotificação e, sobretudo, práticas institucionais que desacreditam ou revitimizam mulheres quando elas tentam denunciar. Em vez de acolhimento, muitas encontram desconfiança. Em vez de proteção, enfrentam morosidade. Em vez de amparo, encontram fragmentação. Foi justamente essa constatação que levou a Carta de Curitiba, documento final do encontro, a defender que o enfrentamento à violência contra a mulher seja tratado como prioridade estratégica do Estado brasileiro, com metas, orçamento, monitoramento contínuo e integração efetiva entre justiça, segurança, assistência social e demais políticas públicas.
A Carta de Curitiba reafirma que a violência contra a mulher compromete não apenas direitos individuais, mas o próprio desenvolvimento democrático, institucional, econômico e social do país. O documento aponta como indispensáveis o fortalecimento da rede de proteção, a capacitação contínua de agentes públicos, o combate à violência institucional, a promoção de programas educativos para a igualdade de gênero, a ampliação da representatividade feminina em espaços de poder, a implementação de políticas de responsabilização e reeducação de agressores e o aprimoramento dos sistemas de produção e transparência de dados sobre violência de gênero. Trata-se de uma formulação política e institucional robusta, construída a partir de debates que não ficaram no plano abstrato, mas se dedicaram a discutir caminhos concretos de transformação.
O SINDICONTAS/PR esteve presente ao longo do encontro não apenas como apoiador da iniciativa, mas como entidade que reconhece a centralidade do tema para o serviço público, para a vida institucional e para a própria democracia. Na cerimônia de abertura, o presidente do sindicato, Wanderlei Wormsbecker, participou do evento ao lado de representantes de diversas entidades e instituições, reforçando a importância de que os espaços públicos não apenas recebam esse debate, mas também se comprometam com ele. Wanderlei também atuou, ao lado da diretora do sindicato Talita Santos Gherardi, como moderador do painel “Como a violência política, institucional e a baixa representatividade feminina perpetuam a violência contra a mulher”, uma das mesas mais relevantes da programação, justamente por tratar da relação entre exclusão feminina, estruturas de poder e reprodução das violências.
A participação de Talita Santos Gherardi e Wanderlei Wormsbecker na condução desse painel teve especial significado para o SINDICONTAS/PR, porque reafirma o entendimento de que a pauta da equidade de gênero não pode ser periférica dentro das instituições. Ela precisa estar no centro das reflexões sobre democracia interna, representação e ambiente de trabalho. Também estiveram presentes no encontro os diretores do sindicato Luiz Tadeu Grossi Fernandes, diretor para Assuntos Jurídicos e também presidente da Pública Paraná, e Alexandre Antônio dos Santos, diretor Administrativo Financeiro, somando-se à presença institucional do sindicato em um espaço de debate que reuniu diferentes experiências e perspectivas. O evento contou ainda com a presença de importantes lideranças do campo sindical e associativo, como Wanderci Polaquini, vice-presidente da Pública Central do Servidor, e Amauri Perusso, presidente da FENASTC, o que reforça a dimensão nacional do encontro e o caráter articulado da discussão.
A programação do evento demonstrou cuidado em tratar o tema em sua complexidade. Os debates abordaram desde os tipos de violência e seus impactos até a violência política e institucional, os desafios do sistema de justiça, as falhas e limites da legislação na prática, e as iniciativas capazes de produzir mudanças concretas. Também ganhou destaque o entendimento de que o enfrentamento à violência contra a mulher não é responsabilidade exclusiva das mulheres. A Carta de Curitiba reforçou que os homens precisam estar envolvidos de forma ativa nesse processo, reconhecendo privilégios, revendo comportamentos e rompendo com práticas e discursos machistas que ainda sustentam desigualdades e violências. Essa é uma dimensão importante do debate, porque desloca a questão do campo exclusivo da denúncia para o campo da corresponsabilidade social.
Para o SINDICONTAS/PR, participar de um encontro dessa natureza significa reconhecer que o enfrentamento à violência contra a mulher não se limita a uma pauta social externa às instituições, mas envolve diretamente a forma como elas se organizam, acolhem, protegem, representam e escutam. Em tempos em que discursos simplificadores tentam reduzir debates estruturais a formalidades ou gestos simbólicos, o 3º Encontro Conacate Mulher reafirmou que é necessário ir além da homenagem e da sensibilização pontual. É preciso tratar o tema como prioridade institucional, política e humana. O evento mostrou que há acúmulo, conhecimento técnico, experiências concretas e vontade política para avançar. Mas também deixou claro que isso exige continuidade, articulação e compromisso real.
Ao apoiar e participar do encontro, o SINDICONTAS/PR reafirma sua inserção nas entidades nacionais às quais é filiado e seu compromisso com debates que dizem respeito não apenas à categoria, mas à sociedade e às instituições públicas como um todo. A defesa do serviço público não pode ser dissociada da defesa de ambientes mais justos, seguros, representativos e comprometidos com a dignidade humana. Falar de violência contra a mulher, nesse contexto, é falar de democracia, de cidadania, de proteção institucional e de responsabilidade pública. E é justamente por isso que esse debate precisa continuar.







