Palavra do Presidente | Saúde mental no serviço público: sobrecarga invisível, responsabilização e adoecimento institucional

Palavra do Presidente | Saúde mental no serviço público: sobrecarga invisível, responsabilização e adoecimento institucional

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Falar de saúde mental no serviço público exige ir além de abordagens superficiais ou meramente individuais. O sofrimento psíquico que atinge servidores não pode ser compreendido apenas como questão pessoal, emocional ou de adaptação ao trabalho. Ele está profundamente ligado às condições institucionais, às pressões estruturais do Estado contemporâneo e ao ambiente político que, com frequência, transforma o servidor em alvo de discursos simplificadores e deslegitimadores.

Nas últimas décadas, o serviço público passou por mudanças significativas. A ampliação de responsabilidades, a redução de equipes, o aumento das demandas sociais e a intensificação dos mecanismos de controle e produtividade criaram um cenário de trabalho mais complexo e, muitas vezes, mais solitário. Ao mesmo tempo, cresceu a expectativa por respostas rápidas, eficiência permanente e resultados mensuráveis, nem sempre acompanhados das condições materiais e humanas necessárias para que essas exigências sejam cumpridas de forma saudável.

Esse contexto produz uma sobrecarga silenciosa. Trata-se de um acúmulo de pressões que não aparece imediatamente em indicadores formais, mas se manifesta em ansiedade, esgotamento, afastamentos por adoecimento, perda de sentido no trabalho e sensação constante de responsabilização individual por problemas que são, na verdade, institucionais. Quando a estrutura falha, o indivíduo passa a carregar o peso do sistema.

A situação se agrava quando o debate público passa a tratar o Estado e seus servidores a partir de narrativas distorcidas. Discursos que associam o serviço público a privilégios, ineficiência ou custo excessivo desconsideram a complexidade das funções exercidas e invisibilizam o trabalho técnico que sustenta políticas públicas, fiscalização, garantia de direitos e funcionamento cotidiano das instituições. Esse tipo de ataque simbólico não é neutro. Ele impacta diretamente a identidade profissional, o reconhecimento social e, consequentemente, a saúde mental de quem atua no setor público.

Nesse cenário, propostas como a Reforma Administrativa aparecem não apenas como mudanças jurídicas ou organizacionais, mas como fatores adicionais de insegurança. A incerteza sobre direitos, estabilidade, carreiras e condições de trabalho produz um ambiente de tensão contínua. Mesmo quando não implementadas, essas ameaças prolongadas já geram efeitos concretos sobre o bem-estar psicológico dos servidores, pois instauram a sensação de instabilidade permanente.

É importante reconhecer que a saúde mental no serviço público não se resolve apenas com iniciativas individuais de cuidado, embora elas também sejam necessárias. Programas de apoio psicológico, ações de prevenção e promoção do bem-estar são fundamentais, mas insuficientes se não vierem acompanhados de reflexão institucional sobre organização do trabalho, dimensionamento de equipes, cultura de responsabilização e valorização do servidor.

Cuidar da saúde mental dos servidores é, em última instância, cuidar da qualidade do próprio Estado. Instituições fragilizadas emocionalmente produzem respostas mais lentas, menos seguras e menos eficazes para a sociedade. Por outro lado, ambientes de trabalho que reconhecem limites humanos, valorizam o conhecimento acumulado e oferecem condições dignas de atuação fortalecem não apenas os profissionais, mas o serviço público como um todo.

Por isso, o debate sobre saúde mental precisa ocupar espaço central nas discussões sobre o futuro do Estado brasileiro. Não como tema secundário ou assistencial, mas como dimensão estratégica da administração pública. Defender condições saudáveis de trabalho, combater narrativas que deslegitimam o servidor e enfrentar reformas que ampliem a precarização são partes de uma mesma agenda de responsabilidade institucional.

Falar de saúde mental no serviço público é falar de dignidade, de reconhecimento e de compromisso com a sociedade. É compreender que nenhum projeto de Estado se sustenta sobre o adoecimento silencioso de quem o faz funcionar todos os dias.

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