Matéria publicada pela Auditoria Cidadã da Dívida em fevereiro deste ano reacendeu o debate sobre o uso da pauta dos chamados “supersalários” como argumento central para impulsionar a Reforma Administrativa. A entidade sustenta que a discussão tem sido conduzida de forma generalizante, transformando casos pontuais em justificativa para alterações amplas nas regras do serviço público.
Segundo dados citados na publicação, o percentual de servidores que recebem acima do teto constitucional corresponde a uma parcela bastante reduzida do funcionalismo — cerca de 1,34%. Ao mesmo tempo, estudos como o Atlas do Estado Brasileiro, do Ipea, indicam que metade dos servidores públicos brasileiros recebe remuneração inferior a R$ 3 mil mensais.
Os números evidenciam que a realidade do serviço público é mais complexa do que a narrativa frequentemente difundida. A maior parte dos servidores atua em áreas essenciais, sob pressão crescente, com responsabilidades técnicas elevadas e remuneração distante da imagem de privilégio que costuma ser associada ao debate.
A Auditoria Cidadã da Dívida reconhece que eventuais distorções remuneratórias devem ser enfrentadas com transparência e regras claras. No entanto, alerta que o tema tem sido instrumentalizado para justificar mudanças estruturais que impactam vínculos, estabilidade e organização das carreiras públicas.
Para o presidente do SINDICONTAS/PR, Wanderlei Wormsbecker, o debate precisa ser conduzido com responsabilidade e base técnica.
“Não podemos permitir que casos pontuais sejam utilizados para fragilizar todo o serviço público. Defender transparência é fundamental, mas isso não pode servir de pretexto para desmontar estruturas que garantem a continuidade das políticas públicas e a autonomia técnica das instituições.”
Segundo Wanderlei, o risco está na simplificação excessiva do debate.
“Quando se constrói uma narrativa de privilégio generalizado, desconsidera-se a realidade da maioria dos servidores e cria-se um ambiente de deslegitimação permanente. O que está em jogo não é apenas a remuneração, mas o modelo de Estado que queremos.”
A discussão sobre Reforma Administrativa envolve aspectos que ultrapassam a questão salarial. Ela afeta a capacidade do Estado de planejar, fiscalizar e executar políticas públicas com estabilidade e previsibilidade. Por isso, o debate exige análise cuidadosa, dados consolidados e diálogo institucional.
Em períodos de maior tensão política, propostas estruturais tendem a ser comunicadas por meio de slogans simples. O desafio é manter o foco na técnica, na responsabilidade fiscal e na defesa de um serviço público eficiente e comprometido com o interesse coletivo.